Normalmente
prefiro escrever artigos sobre produção de cerveja mais básicos já
que para você fazer uma boa cerveja realmente não precisa de
grandes conhecimentos em química ou biologia. Se fosse o caso, eu
como advogado de formação, poderia esquecer o meu hobby favorito!
No
entanto, essa parte dos açúcares é um tema tão complexo e
interessante que sempre me pego dando uma aprofundada no assunto e é
por isso que estou me sentindo a vontade para discutir o assunto por
aqui.
Vou tentar afastar termos técnicos e utilizar um vocabulário
simplificado, mas nem sempre terei sucesso e por isso vcs vão acabar
“esbarrando” em palavras como “isomerizar”, “polímero”,
“oligossacarídeos” e etc..
A propósito, essa vai ser como uma introdução para um artigo mais avançado de brassagem que pretendo escrever em seguida, por isso fiquem atentos para a próxima postagem.
I -
CONHECENDO OS CARBOIDRATOS
Conhecidos como hidratos de carbono, glicídios, glícidos,
glucídeos, glúcidos, glúcides, sacarídeos ou açúcares, os
carboidratos são as biomoléculas mais abundantes na natureza,
constituídas principalmente por carbono, hidrogênio e oxigênio.
Podem tanto ser moléculas “pequenas” e fermentáveis como a
glicose ou mesmo a maltose como as enormes e não fermentáveis e nem mesmo solúveis amilopectinas.
Vejamos
agora os carboidratos que mais nos interessam para a produção de
cerveja.
1-
Carboidratos “simples” (monossacarídeos), compostos de apenas
uma molécula. São solúveis em água.
1.1
Glicose: É extremamente importante para o bom funcionamento de
vários processos cervejeiros e componente base de outros carboidratos
mais complexos. Tem função de fornecedora de energia, participa das
vias metabólicas e é precursora de outras importantes
moléculas. Corresponde a 2,4% dos carboidratos presente no grãos de
malte e 8,9% no mosto.
1.2
Frutose: Assim como a glicose é um carboidrato simples, mas
que não tem grande participação no processo de produção
cervejeiro senão quando na adição de frutas ou de açúcar no
primming.
1.3
Galactose: Praticamente não nos interessa já que não existe
nem no malte e nem é produzida em qualquer processo cervejeiro. Vale
a sua menção já que se combinada com a glicose forma a lactose, um
tipo açúcar levemente doce, como veremos mais adiante.
2-
Carboidratos “pequenos” (dissacarídeos/trissacarídeos),
compostos da ligação de dois ou trés carboidratos “simples”.
São solúveis em água.
2.1
Sacarose: É o açúcar comum branco comum. Obtido pela ligação de
uma glicose com uma frutose. Corresponde a 5,1% dos carboidratos
presente no malte e 5,5% no mosto.
2.2
Maltose: Nossa molécula protagonista! A maltose é responsável por grande
parte do sabor que temos na cerveja afinal é o carboidrato mais
predominante no mosto já que é o produto obtido em maior quantidade durante a sacarificação. Trata-se da junção de 2 moléculas de glicose. Corresponde
a 1% dos carboidratos presente no malte e 41,1% do mosto.
2.3
Celobiose e Beta-Glucanos: É composta por duas moléculas de glicose sendo um
produto da hidrólise incompleta da celulose. Não é fermentável.
Sua importância está no fato de que ela está ligada a formação
de beta-glucanos que aumentam
a viscosidade do mosto dificultando a filtragem (mas que por outro lado melhoram a retenção de espuma). Aparece em
quantidades relevantes apenas em cereais não maltados ou malte de baixa qualidade (mal
modificados).
2.4
Lactose: Não é fermentável na cerveja e por conta disso é
usado nas famosas “milk/sweet/cream stouts” cuja viscosidade e
dulçor não são adquiridos por processos cervejeiros comuns, mas
normalmente pela adição da Lactose. Trata-se da combinação de uma
glicose com uma galactose.
2.5
Rafinose: Um trissacarídeo formado de galactose, frutose e
glucose presente apenas em leguminosas (grão-de-bico, ervilha, soja,
lentilha, fava e feijões). O interessante dele é que são melhor
fermentados por leveduras lagers que conseguem quebrar e metabolizar 100% de
suas moléculas enquanto as ales metabolizam apenas a frutose.
2.6
Maltotriose: Outro trissacarídeo formado pela ligação de 3
moléculas de glicoses. É fermentável tanto em ales como em lagers
sendo, portanto, um açúcar relevante para o sabor de sua cerveja.
Corresponde a 0,6% dos carboidratos presente no malte e 14% do mosto.
3-
Carboidratos “médios” (oligossacarídeos), compostos da ligação
de 2 até 10 carboidratos “simples”. São solúveis em água.
3.1 Maltotetraose: Formado pela ligação de 4 moléculas de
glicose. Não é fermentável seja por fermentos ales ou lagers.
Corresponde a 0% dos carboidratos presente no malte e 6,1% do mosto.
3.2 Maltopentaose: Formado pela ligação de 5 moléculas de
glicose. Não é fermentável seja por fermentos ales ou lagers.
3.3 Dextrinas: No universo "homebrewer" é basicamente um termo “genérico” para designar
carboidratos não fermentáveis formados, normalmente, pela ligação de 4 ou + moléculas de glicose. Corresponde a
2,5% dos carboidratos presente no malte e 22,2% do mosto.
3.4 Dextrina Limite (limit dextrin): Trata-se de um polímero
que faz a ligação nas cadeias de moléculas na amilopectina e que
as enzimas beta/alfa milase não conseguem quebrar. Na realidade, uma outra enzima presente no mosto, a
“limit-dextrinase”, consegue partir essa ligação (ela funciona melhor na
temperatura de 60°C). Se não for sintetizada pela limit-dextrinase
esse carboidrato não é fermentável e sua cerveja provavelmente teria problemas para atenuar até um patamar desejável.
4-
AMIDO: Carboidrato “grande” (polissacarídeo), composto da
ligação de milhares de glicoses. É insolúvel em água. Presente
em diversos vegetais e no interior de sementes como a cevada.
Ao moermos os grãos estamos na realidade expondo grânulos de
amido de seu interior separando-os da casca. Esse amido é uma mistura de dois polissacarídeos, amilose e
amilopectina conforme veremos abaixo.
4.1 Amilose: É um polímero de, em média, 1.600/1.900
glicoses. Constituí cerca de 20 à 30% do amido de um grão de
cevada.
4.2
Amilopectina: Macromolécula,
menos hidrossolúvel (mais viscosa) que a amilose, constituída de
aproximadamente 10 à 20 vezes mais glicoses que a sua irmã!
Constituí cerca de 70 à 80% do amido de um grão de cevada.
OBS: Ví no wikipedia que o amido teria aproximadamente 1.400 glicoses, porém em outros artigos observei números diferentes bem maiores. Preferi confiar nas outras fontes, mas independentemente disso a questão relevante é que seja o amigo ou seja a amilopectina/amilose estamos diantes de moléculas beeeeem grandes que para serem metabolizadas precisam de um bom tempo sob ação enzimática durante a sacarificação.
TABELA 1
| Carboidrato | Malte | Mosto sacarificado |
| Amido (amilose + amilopectina) | 85.8 | 0 |
| Dextrinas | 2,5 | 22,2 |
| Maltotetraose | - | 6,1 |
| Maltotriose | 0.6 | 14.0 |
| Maltose | 1 | 41.1 |
| Sucrose | 5,1 | 5,5 |
| Glicose + Frutose | 2,4 | 8,9 |
| Total | 97.4% | 97.8% |
II - ACÚCARES ESPECIAIS E OUTROS ADJUNTOS
Vamos falar agora de alguns açúcares que podem ser usados na
produção de cerveja.
1- Maltodextrina: Encontrada em lojas de suplementos ou de
produtos naturais. Ela não é fermentável e por isso contribui para
adocicar a cerveja e conferir corpo além de dar um “boost” na
retenção de espuma. Essa dextrina é feita normalmente a partir de
amido de milho hidrolisado e é bastante usada nos EUA especialmente
por cervejeiros de extrato que querem “engrossar o caldo” de suas
produções!
2- Melaço - Açúcar mascavo/demerara/turbinado/azucar morena:
Durante o refino do açúcar branco os subprodutos removidos são
chamados de “Molasses” nos EUA e aqui conhecemos o termo como
Melaço. O mascavo nada mais é que o açúcar comum cujo processo de
refino foi interrompido no meio e por isso possui características de
sabor de sabor adicionais conferidas por esses subprodutos.
Outros açúcares como o demerara e o turbinado são completamente
refinados mas recebem uma adição posterior do melaço sendo certo
que quanto maior seu teor mais escuro serão os grãos e maior será
o sabor de caramelo. Normalmente são usados em cervejas escuras.
Evite usa-lo para priming já que o teor de açúcar é variável.
3- Karo – xarope de milho: Composto basicamente de glicose é
um adjunto barato que, assim como o xarope de arroz é usado como
adjunto em cervejas “leves” comerciais em substituição ou
adição aos grãos normalmente utilizados. Deixa a cerveja mais seca
e com o sabor mais leve.
4- Maple Syrup: Antes de mais
nada atenção à concentração real de Maple na embalagem do
produto. Muitas vezes é algo como 5% e os 95% restantes são
normalmente xarope de milho. Ou seja, atenção para comprar um
produto idêntico ao planejado na receita. O maple em geral passa um
sabor descrito como amadeirado e com até um leve defumado. Para quem
quiser conhecer o sabor basta comprar uma garrafinha da americana
Utopia, ela leva uma boa quantidade de maple pelo que li.
5- Mel: O mel é uma mistura
complexa de açúcares, como a glicose (cerca de 30%) e frutose
(40%), água (18%) e outras substâncias como carboidratos, proteínas
e aminoácidos. u seja, é composto de cerca de 75 à 80% de açúcares
fermentáveis, o restante é água, proteínas, alguns minerais, etc.
No entanto, também encontramos nele
algumas substâncias indesejáveis como leveduras selvagens, enzimas
e cera que gerar defeitos em sua cerveja.
6- Candy Sugar: É
basicamente açúcar comum invertido e sujeito à um processo de
caramelização. Muito usado em cervejas belgas sendo um item quase
obrigatório em sua produção. Existem vários tutoriais ensinando a
fazer candy sugar em diferentes cores e graus de caramelização na
internet. Aconselho a leitura desse artigo que demonstra
perfeitamente a importância do candy sugar na produção de uma
tripel!
7- Açúcar Invertido: Como
já vimos, o açúcar comum é uma glicose ligada a uma frutose.
Quando dizemos que vamos inverte-lo estamos na realidade separando
essas duas moléculas e dando uma “mãozinha” para o fermento que
de outra maneira teria que fazer sozinho esse duro trabalho de
separa-las. Na prática esterilizar apenas o açúcar fervendo-o
funciona, mas ao adicionar umas gotinhas de limão nesse momento
estamos tornando o meio ácido e com isso ativando uma enzima
(invertase) que no calor faz essa separação facilmente. O resultado
é que a cerveja acaba por carbonatar mais rapidamente.
8- Outros: Não tenho como enumerar
todos as possibilidades de produtos aptos para uso em sua cerveja,
use a sua imaginação! Temos cervejas com rapadura, doce de leite
(sugestão do Randy Mosher quando esteve no Brasil), mandioca,
abóbora e etc...
TABELA 2
TABELA 2
| AÇÚCAR | DENSIDADE e COR (SRM | BREVE DESCRIÇÃO | FERMENTABILIDADE | USO MÁXIMO SUGERIDO |
| Candi Sugar (claro) | 1036 – 0,5 | Sabor suave, contribui para retenção de espuma, aroma doce aumenta a densidade sem ser tão aparente a diferença no produto final. Use principalmente em cervejas belgas | Praticamente 100% | 20,00% |
| Candi Sugar (ambar) | 1036 – 75 | Sabor suave, contribui para retenção de espuma, aroma doce aumenta a densidade sem ser tão aparente a diferença no produto final. Use principalmente em cervejas belgas mais escutas como dubbel | 98/99% | 20,00% |
| Candi Sugar (escuro) | 1036 – 275 | Sabor suave, contribui para retenção de espuma, aroma doce aumenta a densidade sem ser tão aparente a diferença no produto final. Use principalmente em cervejas belgas mais escutas como dubbel | 96-98% | 20,00% |
| açúcar mascavo (claro) | 1046 – 40 | Confere um sabor rico e doce. Use em Scottish ales, old ales e holiday beers. | Praticamente 100% | 10,00% |
| Açúcar mascavo (escuro) | 1046 -60 | Confere um sabor rico e doce. Use em Scottish ales, old ales e holiday beers. | Praticamente 100% | 10,00% |
| xarope de Karo | 1037 | Usado para cervejas “leves” em substituição ao milho ou arroz. Sabor “limpo”, leve e seco. | Varia... | 10,00% |
| Açúcar Demerara | 1.041-1.042 | Sabor doce. Use em English ales. | Praticamente 100% | 10,00% |
| Dextrose (glicose) | 1037 – 1 | Sabor doce suave. Facilmente metabolizado pela levedura. Deixa a cerveja seca e mais alcoolica. Use em English ales. | Praticamente 100% | 10,00% |
| Extrato de malte seco ( DME) | 1044 – Varia | Extra light (2.5 SRM), Light (3.5 SRM), Amber (10 SRM), Dark (30 SRM), Wheat (3SRM) | Varia... | Até 100% |
| Mel | 1032 – Varia | Imparts sweet and dry taste. For honey and brown ales. Also: specialty ales. | Varia... normalmente 75-80% do mel é fermentável | Até 20% (cerveja) 50% (Braggot) e 100% (hidromel) |
| Açúcar Invertido | 1046 – NA | Aumenta o alcool. Use em Belgian ou English ales. Use como adjunto para priming. Facilmente fermentável | Quase 100% | 10,00% |
| Lactose | 1043 – NA | Adiciona corpo e dulçor. Use em sweet/milk stouts. | 0,00% | 15,00% |
| Maple Sap | 1009 – 3 | Sabor seco e que remete a terra. Use em pale ales, porters e maple ales. Normalmente usado em substituição à água | usado em substituição à água... | NA |
| Maple Syrup | Variam | Sabor seco e que remetea madeira se usado no final da fervura. Se engarrafada com ele a cerveja pega um sabor maior de maple puxando para o doce. Use em maple ales, pale ales, brown ales e porters. | Varia... | Segundo Papazian até 25% |
| Melaço | 1036 – 80 | Imparts strong sweet flavor. Use in stouts and porters. | Aproximadamente 65% nas versões mais escuras | 10,00% |
| Açúcar branco (sucrose) | 1046 – NA | Aumenta o teor alcoolicol. Use em Australian lagers e English bitters. | Quase 100% | 10,00% |
| Malto Dextrin | 1043 – NA | Aumenta corpo e viscosidade. Comum em cervejas de extrato. | 0,00% | 15,00% |
| Rapadura | Variam | “Rapadura (dried and crystallized sugarcane juice)-This is a natural and unrefined sweetener popular in Brazil It is simply juice squeezed from sugarcane. There are various grades and some are quite dark and flavorfuL 225-450g to a 19L batch can add a pleasant caramel toffeeIike character to a pale beer.” The_Complete_Joy_of_Home_Brewing | ? | Até 450g p/ 20L |
III - DICAS E COMENTÁRIOS FINAIS
- Use açúcar e outros adjuntos com
moderação. Em geral uns 10% da composição do mosto é mais que
suficiente.
- Adjuntos fermentáveis em geral
vão deixar sua cerveja mais seca enquanto os não fermentáveis vão
deixa-la mais encorpada, viscosa.
- Existem várias formas e momentos
propícios para adiciona-los em suas levas. Uma maneira prática e
segura seria coloca-los na panela perto do final da fervura para
esterilizar sugiro essa forma para candi sugar, açúcar
branco/mascavo/demerara/turbinado/melaço/maltodextrina. Outra
maneira, que eu sugiro para os produtos com aroma mais delicado como
mel e maple, seria pasteurizar e adicionar no 2° dia de fermentação,
a vantagem dessa técnica seria preservar melhor o aroma especial e
ainda dar um “boost” na fermentação que estará saindo de seu
pico.
- Não faça testes aleatoriamente.
Existem vários artigos e relatos na internet vale a pena uma
pesquisada antes para não correr o risco de fazer besteira.
- Cervejas com OG elevado (eu diria
acima de 1075) normalmente se beneficiam bastante do uso de adjuntos
fermentáveis. Veja as cervejas belgas por exemplo, imagine beber uma
receita de Duvel ou de uma Karmelit puro malte! É certo que seriam
cervejas totalmente diferentes (imagino que para pior), provavelmente
elas perderiam o toque leve e refinado por uma líquido que te
empapuçaria em 2 goles! Um exemplo comum seriam as receitas extremas
da aclamada dogfish head, praticamente todas usam açúcares e outros
adjuntos especiais justamente para aprimorar a drinkability e de
quebra conferir complexidade à cerveja!
Basicamente usei o wikipedia e o Braukaiser como fontes para escrever esse texto.
Basicamente usei o wikipedia e o Braukaiser como fontes para escrever esse texto.



Ave!
ResponderExcluirMestre, mais um artigo pra impulsionar minha possível infidelidade com o puro malte, no próximo ano, quando haverei de, 'data venia', tentar produzir cervejas especiais como as que vossa sapiência nos propõe, nesse caminho mágico de açucares rumo ao álcool.
Creio que começarei com o açúcar mascavo.
Saúde!
Faltou completar que o melaço (molasses) não é fermentavel. O uso de açucar mascavo vai dar um final adocicado a cerveja.
ResponderExcluirE ai Fernando, é isso ai tb concordo que em muitos estilos é besteira se manter fiel ao conceito "Puro Malte". !!
ResponderExcluirRoten, o melaço é parcialmente fermentável... Aliás pelo que li o melaço mais forte tem 65% de fermentabilidade! Mas seguindo a sua sugestão adicionei uma tabelinha pra facilitar a compreensão!
abraços
Grande mestre ... essas tabelas faz parte do meu caderno de anotação, e vei em uma boa hora, pois dia 11 vou brassar um tripel, e claro vou seguir o conselho que vc me deu na comu de adicionar o mel nos ultimos 15 minutos...
ResponderExcluirExcelente material. Sou iniciante nesta arte e seu blog tem sido de imensa ajuda. Muito obrigado! Marcos - Itapetininga/SP
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