Essa
postagem foi sugerida por um dos leitores aqui do blog, aliás,
fiquem a vontade para sugerir temas (outra que foi sugerida e que
devo fazer em agosto é sobre sanitizantes).
Bem, o
armazenamento é algo que todos devemos ter atenção pois mexe tanto
com a qualidade da cerveja como com o nosso bolso, então não
reparem no tom bem-humorado do artigo porque o assunto é realmente
importante!
Vou
separar a postagem em 3 partes, cada qual dedicada aos 3 insumos
cervejeiros – malte, lúpulo e fermento.
I –ARMAZENANDO O MALTE
Recentemente
o preço do malte foi para as alturas com um controverso “bloqueio”
aos cervejeiros caseiros que atualmente só podem adquirir grãos da
Weyermann e da Agrária na Aturma, por um preço bem superior ao que
obtínhamos indo “direto na fonte”.
Enfim, a
saída para baratear nossas produções acaba sendo comprar sacas
cada vez maiores para não ter que arcar com o custo do fracionamento
surgindo a questão de como e onde guardar os grãos restantes até a
próxima leva.
1°
Problema: Carunchos
Um malte
armazenado incorretamente pode gerar uma proliferação de carunchos,
bichinhos que apesar de inofensivos se alimentam do amido dos grãos
e podem detonar um quilos de malte em questão de semanas! O que
ocorre é que como grãos carunchados perdem amido e por conseguinte,
sua brassagem perde eficiência!
Apesar da
perda de eficiência, ainda podemos utilizar os grãos já que não
existe problemas em termos de saúde ou qualidade (que eu saiba) em
fazer cerveja com alguns carunchinhos juntos. Aliás,uma das maiores
piadas entre os homebrewers é que malte carunchado deve sempre ser
alvo de uma parada protéica durante a brassagem para “converter”
os bichinhos.
Uma regra
geral é manter seus grãos em um local seco e fechado. No entanto,
infelizmente para períodos prolongados isso pode não ser o
bastante.
Soluções
Praticamente
todo malte possui ovos de carunchos que podem eclodir com o tempo
(vale mencionar que o pilsen por ser o menos processado durante a
malteação é ainda mais propenso). As soluções caseiras são
meios de trucidar esses insetinhos lazarentos. ou seja, deixem o lado
serial-killer despertar em vocês!
- Fogo e Gelo: Carunchos não eclodem de seus ovos se você acondicionar o malte na geladeira/freezer (bem fechado para não absorver muita umidade) ele fica livre das pragas, por outro lado o calor também pode ser usado como arma. Se carunchos começarem a aparecer em sua saca de malte espere um dia de sol e espalhe os grãos no sol tipo em uma lona, deixe por algumas horas e veja os carunchos tostarem lentamente. Um aquecimento no forno (bem leve) também é válido, mas cuidado para não alterar as propriedades do malte transformando o seu “pilsen” em um “carafa”.
- Asfixia: Carunchos são insetos e precisam de oxigênio para se manterem vivos. Ora, vamos asfixia-los então! Os métodos são vários por isso decidi elencar os mais comuns abaixo:
- Bombonas alimentícias hermenticamente lacradas (pode acender uma vela dentro ou injetar CO2 para eliminar o O2 restante)
- Post-mix novamente com uso de CO2
- Terra Diatomácea – TD (ou Tortura Diabólica): Nunca testei, mas para os realmente maníacos é um método realmente atraente. A TD é altamente higroscópica, portanto gruda em qualquer meio que esteja úmido. Resultado, se os seus grãos estiverem devidamente secos ela irá grudar nos carunchos que tem umidade em seu organismo e fazendo com que eles fiquem extremamente incomodados e sem conseguir se alimentar até que morrem de forma lenta e excruciante!
- Seladoras a vácuo (opção cara, mas ideal) ou sacos Ziplock (opção barata)
2°
Problema: Mofo
Além
dos carunchos os seus grãos também podem mofar. Nesse caso não
aconselho seu uso pois malte mofado gera 2 graves conseqüências
para sua cerveja, o gushing (excesso de CO2 na garrafa produzido pelo
fungo “fusarium”, perigoso pois pode gerar explosões) e um
off-flavor denominado grassy (aroma de grama cortada).
Soluções
São
apenas soluções preventivas, se o seu malte está mofado não há o
que fazer, jogue-o fora e armazene melhor os grãos de suas compras
futuras!
- Armazenamento: Guarde seus grãos adequadamente, especialmente em um lugar seco.
- Secar ao sol: Não cura o problema, mas ajuda a remover a umidade dos grãos diminuindo os riscos de um armazenamento prolongado!
II – Lúpulo
O lúpulo,
tem 3 grandes inimigos, o calor, o oxigênio e a luz. Mas, como
armazena-lo e quais problemas que um erro nessa parte implicariam ?
1°-
Problema: OFF-Flavor – Isovalérico (chulé de queijo)
Sério
gente, em um curso de análise sensorial que fiz o pior off-flavor
“degustado” foi o Isovalérico. È fortíssimo e com certeza
inviabilizaria qualquer leva se presente em altas concentrações.
Pessoalmente
acredito que assemelha a uma mistura de cheiro de queijo velho com
“CC” (cecê?) de ônibus lotado!
Para
identificar esse lúpulo velho basta uma cheiradinha nele “in
natura”, o cheiro ruim é bastante evidente! Além disso, ele perde
a coloração esverdeada tornando-se marrom!
Soluções:
- Ferver por 3 horas o mosto para tirar o ranço de lúpulo velho e fedorento. Alguns estilos belgas usam essa técnica para aproveitar o poder bacteriostático da nossa plantinha.
- Quando entrar em contato com seu revendedor (WE, Aturma, BodeBrown...) pergunte sempre quais os lúpulos mais frescos no estoque e dê preferência à eles!
- Sempre armazenar dentro de um freezer/congelador e manter menor contato com ar possível. Se tiver seladora a vácuo ótimo, se tiver saquinho ziplock use-o apertando antes para eliminar o ar de dentro o máximo possível.
2°-
Problema: Declínio dos Alfa-ácidos
Não sei
se vocês sabem, mas mesmo bem armazenados os lúpulo (em especial os
de amargor) vão aos poucos perdendo seus alfa-ácidos. Na média eu
diria que se mantidos por 6 meses na temperatura de 20°C, cerca de
50% de seus alfa-ácidos vão ser perdidos e isso pode influir
significativamente no IBU programado e conseqüentemente no amargor
que procurava em sua cerveja.
Soluções:
- Manter o saco de lúpulo fechado (de preferência com ziplocks ou a vácuo) para evitar o máximo possível o contato com oxigênio.
- Armazenar no freezer. Pode congelar numa boa!
- Comprar lúpulos frescos. Não é demais salientar que é sempre uma boa idéia perguntar ao seu fornecedor quais os lúpulos mais frescos (importados mais recentemente) eles têm na prateleira. Exija essa informação, é um direito seu!
III – FERMENTO
O seu
fermento deve sempre ser armazenado na geladeira e em um ambiente
esterilizado para evitar contaminações.
1°
Problema: Perda de viabilidade
Quando
sua fonte de leveduras possui uma boa quantidade de células viáveis,
ou seja, vivas, com pouca mutação, “ativadas” e em n° adequado
(Para calcular esse nº siga essa fórmula: 0,75 p/ ales ou 1,5 p/
lagers milhões de células viáveis de fermento X graus platos de
densidade x ml de mosto = quantidade de células necessárias)
Um
fermento mal armazenado vai rapidamente perdendo sua viabilidade e
por isso temos que prestar atenção para inocular corretamente.
Soluções:
- Fermentos secos: armazene-os fechados, na geladeira, prestando atenção ao seu prazo de validade. Se preciso inocule 2 ou até 3 pacotes de fermento conforme essa tabela.
- Fermentos líquidos: Bem, eles não são revendidos pelas fornecedores nacionais e também não aconselho compra-los online nas lojas estrangeiras pois o tempo de viagem é grande e a sua fragilidade é menor. Peça para um amigo trazer para você na mala, de preferência enrolado em um saco em gel congelado para manter a temperatura e assim que chega leve-o diretamente para a geladeira. Use o mais cedo possível pois sua viabilidade cai rapidamente. Sempre faça um starter para garantir.
- Lama: Guarde a lama em um pote sanitizado/esterilizado na geladeira e por não mais de um mês. Nesse caso pode usa-la normalmente. Se passar de 1 ou 2 semanas, um starter é aconselhável.
2°
Problema: Contaminações
Bem, acho que a maioria já sabe que após a fase da fervura todo
cuidado com contaminação é bem vindo em especial quando o problema
pode ser advindo de um fermento mal cuidado.
Soluções:
As mesmas citadas acima.
IV – CERVEJA PRONTA
Finalmente chegamos à parte de como armazenar sua cerveja caseira já
pronta e quais problemas que erros nessa parte podem ocasionar (estou
supondo aqui armazenamento em garrafas de vidro que é a forma mais
tradicional).
1°-
Problema: OFF-Flavor – Skunky (cheiro de heineken)
Pois é a Heineken em sua tradicional garrafinha verde quase sempre
está acompanhada do famoso “Skunky” cuja tradução olfativa
normalmente é descrita como cheiro de gambá (eu nunca cheirei um
para confirmar mas não acredito que deva ser tão ruim assim...
alías sou um belo apreciador da heineken como cervejinha industrial
voltada p/ as massas, bem melhor que as ambevianas similares).
Enfim garrafas verdes ou transparentes devem ser sempre evitadas pois
o lúpulo reage com os raios UV causando esse off-flavor.
Solução:
Use garrafas âmbar/marrom
conservando-as protegidas da luz e do sol.
2°-
Problema: Chill Haze
Quando se esfria antes de servir, muitos preparados apresentam uma
turbidez estranha (o tal chill haze). É causada pelas proteínas
remanescentes daquelas que deveriam ter sido eliminadas pelo cold
break (choque térmico no resfriamento pós-fervura).
A resfriação lenta não as afeta. Quando a cerveja é esfriada para
bebê-la, estas proteínas se precipitam parcialmente formando uma
turbidez. A medida que a cerveja se esquenta, as proteínas voltam a
dissolver-se e a cerveja volta a se clarificar.
A boa notícia é que o chill haze é um problema cosmético. Não
tem sabor.
Solução:
Melhore sua técnica de resfriamento!
3° Problema: Idade – OFF-FLAVOR: oxidação (papel, papelão,
metal...)
Bem, quanto tempo dura uma cerveja caseira? Pergunta complicada... é
raro você encontrar uma garrafinha de cerveja caseira “vencida”.
Digo isso pois em geral elas são espécies de vida curta pois
raramente conseguimos guardar por mais do que alguns meses sem beber
todo o estoque!
Brincadeiras a parte, já bebi uma Tripel (a Trimel) com um ano de
idade e o sabor só melhorou! Dois (2!) anos depois, no entanto,
achei um exemplar na casa de um amigo (o mané não tinha bebido
então obviamente confisquei a garrafa) estava ótima, mas um tico
oxidada e menos carbonatada... Penso que apesar de ainda muito boa já
começava a decair!
Enfim, deduzir a vida útil de uma cerveja é algo complexo alguns
fatores tendem a aumentar sua sobrevida (OG alta, alcool, estilos que
aceitam oxidação como barley wine, lupulagem generosa...)
O inimigo maior então é a oxidação pois com o tempo o oxigênio
penetra na garrafa e incrementando sabores que remetem a
papel/papelão e até metal na cerveja!
Solução: Beba suas cervejas rapidamente! Faça um churrasco com os
amigos e me convide!
Um Brinde!


Adorei o texto Bode e o engraçado e que fiz um curso sobre lúpolo no sábado dia 08/10 com o mestre Paulo Schiaveto no Uaiktoberfest em Nova Lima - MG. Tive a oportunidade de conhecer várias características do lúpolo e agora lendo seu texto o que aprendi lá faz mais sentido...
ResponderExcluirAbraços
Eu uso uma coisa um pouco diferente pra armazenar maltes: garrafas pet. Simpels, barato, lacrado. Para os mais caxias daria até pra injetar CO2 com um carbonator.
ResponderExcluirMas ainda acho que a melhor solução para o armazenamento é não armazenar: use tudo, faça mais cerveja :P
Giovanni, a dica das garrafas pet é muito boa ! Aliás, pretendo implementa-la futuramente hehehe
ResponderExcluirBode, essa foto da seladora me pareceu bem familiar...hehehe
ResponderExcluirCara, butírico na verdade é vômito de neném e não vem do uso de lúpulos.
O aroma de chulé que vem de lúpulos velhos é conhecido como isovalérico.
Abs!
opa valeu a correção Rafael vou arrumar agora mesmo o texto !
ResponderExcluirNa realidade achei o isaovalérico ainda pior que o butírico que tb é um dos piores rsrsrs
Bode, com relação ao armazenamento de malte, haveria algum problema no armazenamento dele já moído?
ResponderExcluirÉ que estou com uma boa quantidade de pilsen em estoque e seria bem mais prático moer tudo de uma vez só e guardar.
Deixa quieto, achei a resposta aqui:
ResponderExcluirhttp://byo.com/stories/wizard/article/section/121-mr-wizard/1627-what-is-the-best-way-to-store-crushed-grains
Resumindo, não se deve armazenar moído :P
Bode, sempre fico em duvida se armazeno minha cerveja depois de pronta na geladeira ou fora, ja que nao faço a pasteurização devia mante-las geladas? e o priming ia ter resultado igual já que eh uma ale?
ResponderExcluirGrande abraço!! seu blog eh o melhor de homebrew nacional!
Gabriel, seja ale ou lager, se fez priming deixe uns 15 dias pelo menos em temperatura ambiente, ou na faixa de atuação do fermento.
ResponderExcluirO problema seria deixar que o líquido subisse para mais de 35°C (o fermento começa a morrer) ou a menos de 10°C (ele entra em "hibernação" e não iria converter bem o açúcar do priming em co2 e alcool).
Após esses 15 dias sua cerveja mto provavelmente já estará carbonatada. Depois disso se quiser armazenar na geladeira ótimo!! em temperatura ambiente tb não tem problema... eu diria q na media ambos os casos ela teria uma vida média superior a um ano! Só evite ficar gelando e desgelando a cerveja!
abçs
Obrigado Bode, minhas ideias estavam corretas entao!!
ResponderExcluirEh q vi no lancamento da Colorado Vixnu que eles iriam fazer toda a cadeia de transporte e venda com uma temperatura baixa para, segundo eles, preservar aromas e sabores ja' que ela sera' viva na garrafa, ai me veio a duvida.
Um abraco
Fala Gabriel, salvo engano a coruja adota esse mesmo procedimento...
ResponderExcluirNão é frescura, mas tb não é algo que considero relevante para nós caseiros... Ja deixei cervejas por mais de um ano em temperatura ambiente e bebi sem problemas!