1- INTRODUÇÃO
1.1- Cloro e PH
Para começar vale esclarecer que se você é um cervejeiro iniciante não aconselho que fique se preocupando com a água que vai usar, apenas fique atento para que ela esteja livre de cloro e tenha um ph inferior a 7,0 (preferencialmente menor que 6,0).
Ou seja, nada de usar água da bica diretamente!! Ela tem uma quantidade de cloro que pode afetar a fermentação e gera um off-flavor chamado clorofenol (aroma descrito como de “hospital”) dentre outros no produto final.
Logo, o cervejeiro tem basicamente 2 opções:
- Comprar água mineral que já é livre de cloro e possui em seu rótulo o PH e sua composição.
- Comprar um ou mais filtros de carvão ativado e usar água encanada. Acredito que 2 filtros em série é a configuração mais indicada haja vista que, em média, um deles remove 70% do cloro apenas. Outra opção seria simplesmente ferver a água pois o cloro é volátil e seria completamente eliminado.
OBS: sempre usamos apenas um filtro de carvão ativado mas penso seriamente em adquirir um segundo. Calculamos uma economia enorme quando passamos a filtrar nossa própria água no lugar de comprar galões de água (que eram nosso maior gasto com insumos).
1.2- O engodo da água cervejeira
O engodo sobre a água cervejeira é uma coisa não posso deixar de falar. É costume ouvirmos clichês como “cerveja X, produzida com água pura da serra”, ou, “cerveja produzida com a mais pura água obtida nos glaciares andinos”.
Essa baboseira sobre a fonte ou pureza da água não deve ser considerada, aliás, acho que quase a totalidade das grandes cervejarias passam a água que utilizam em um processo de osmose reversa que remove todo e qualquer íon que ela eventualmente possua para somente depois trata-la da maneira que lhes convir (se optarem por faze-lo).
Falar que a água utilizada é de uma fonte excepcional e por isso produz uma cerveja de alto nível é um engodo tão grande ou ainda maior que o mais famoso clichê nacional “cerveja produzida com lúpulos importados” (claro, afinal não existe plantação de lúpulo no Brasil!!)
Vejam bem, não estou dizendo que a água não seja importante. Apenas quero deixar claro que no âmbito das produções caseiras o tratamento dela pode ser um diferencial, mas nunca vai protagonizar um papel essencial no processo de produção. Nós mesmos fizemos inúmeras levas sem qualquer preocupação com a água senão no que pertine ao cloro e ao PH.
2- SOFT X HARD WATER
Uma forma simples de se referir à água cervejeira é por “soft water” ou “hard water”.
A água mole (soft), pobre em sais dissolvidos e é costumeiramente usada para a produção de pilsens por exemplo. Ademais são excelentes para um tratamento mais fidedigno já que podemos até adicionar sais, mas não é comum fazer sua remoção de forma caseira/artesanal.
Uma boa noticia é que a maior parte da água encanada brasileira é mole (aqui no Rio de Janeiro posso confirmar essa informação). Na dúvida pergunte a sua fornecedora ou converse com alguns cervejeiros experientes de sua localidade afinal, eles mesmos podem já ter encomendado uma análise físico-química da água de sua região.
A água dura, por sua vez é mais rica em íons e dependendo de sua configuração pode ser positiva para determinado estilo de cerveja melhorando o seu perfil de sabores e aromas.
Esse índice de dureza pode ser medido somando os 3 principais íons (Cálcio, Magnésio e Bicarbonato) em ppm (partes por milhão) * 1 ppm = 1mg/L.
- 0 - 50 ppm: Água Mole
- 51 -110 ppm: Água “Média”
- 111 - 200 ppm: Água dura
- 200+ ppm: Água super dura.
Nesse contexto de dureza podemos separa-la em permanente (Cálcio + Magnésio) e temporária (bicarbonato) que se solidifica com a fervura ou certos ácidos e é eventualmente eliminada. Evite usar acima de 100ppm de dureza temporária, isso atrapalharia o ph da brassagem e iria conferir um sabor de amargor desagradável.
3- PRINCIPAIS ÍONS E SUAS CARACTERÍSTICAS
Ao invés de ficar escrevendo um texto vou escrever por tópicos que, creio, será um método mais didático e visual de passar as características de cada íon. Posso, no entanto, adiantar que o íon do cálcio é de longe o mais importante o que significa que praticamente toda cerveja se beneficia com um uso adequado do mesmo.
Cálcio (Ca++)
- Diminui o PH do mosto (seu uso correto praticamente garante um ph de 5,2 na fervura e mostura que, como já vimos, é o valor quase sempre a ser buscado).
- Auxilia a filtração/lavagem (diminui a viscosidade do mosto e reduz a absorção de taninos)
- Contribui para clarificação da cerveja (aumenta a sedimentação de proteínas na fervura e leveduras na fermentação)
- Protege (até certo ponto) a enzima alfa-milase de sua inativação por calor.
- Abaixo de 50 ppm é ruim. Mantenha entre 50 e 150 ppm para a maior parte das cervejas
Magnésio (Mg++)
- Diminui o PH mas não tanto quanto o cálcio.
- Auxilia a fermentação (nutriente p/ levedura)
- cervejas puro malte já adicionam uma quantidade adequada de Mg que acima de 30 ppm podem trazer um amargor desagradável na cerveja.
- Evite usar em concentrações altas pois pode resultar em uma cerveja com um toque azedo e/ou adstringente.
- Mantenha entre 10-30 ppm.
Cloreto (Cl-)
- Aumenta a sensação de corpo e doçura
- Mantenha abaixo de 200 ppm (sendo abaixo de 150 ppm mais indicado)
Sódio (Na+)
- Aumenta a sensação de corpo e doçura (quantidades exageradas tem um resultado desagradável e pode até mesmo matar leveduras)
- Desagradável na presença de sulfato; quanto mais sulfatos, menos sódio, e vice-versa, sendo 100ppm de sulfato de sódio o limite para essa combinação.
- 10-70 ppm é normal, até 150 ppm pode realçar sensações de corpo e doçura em estilos que o pedem mas acima de 200 ppm não é indicado.
Sulfato (SO4–)
- Ajuda a degradação do amido e das proteínas e ajuda na filtragem e na formação do trub. Melhora o sabor do lúpulo e diminui o seu amargor.
- Favorece um paladar mais seco que fica excessivamente áspero na presença de sódio.
- 10-50 ppm para lagers leves / 30 a 70 ppm para ales em geral / acima disso para cervejas mais amargas.
Bicarbonato (HCO3-)
- Em níveis baixos a acidez da mostura pode ser excessiva
- Em níveis altos o mosto pode ficar pouco ácido prejudicando o processo em várias etapas (conversão enzimática, cold-break, amargor rasgante e etc...)
- Recomenda-se o uso de 25-50 ppm (cervejas claras) e 100 ppm (cervejas escuras)
* OBS: Em relação às concentrações recomendadas consultei mais de uma fonte e fiz uma média das sugestões na postagem. A do bicarbonato, no entanto, foi bastante controversa. Uma fonte (Papazian) afirmou que não se deve usar mais que 100 ppm de bicarbonato enquanto o beersmith por sua vez aconselhava entre 100 e 300 ppm para cervejas escuras.
Típicas relações em sulfato e cloreto por estilo
| ESTILO | SULFATO / CLORETO |
| | |
| English Pale Ale | 2/1 |
| Scottish Pale Ale | 3/2 |
| Mild Ale | 2/3 |
| Stout | 1/ 2 |
| Dry Stout | 3/1 |
4- AJUSTANDO SUA ÁGUA
1° Passo: Decidindo a composição de sua água
Bem, você pode seguir algumas tabelas (próxima parte) ou simplesmente raciocinar conforme o estilo que pretende produzir. Por exemplo, se vai produzir uma bock que é um estilo maltado e encorpado talvez seja uma boa colocar uma quantidade maior de sódio para realçar essa qualidade.
Para uma cerveja mais lupulada (uma IPA por exemplo) em lugar do sódio prefira sulfato que melhora a qualidade do amargor.
Enfim basicamente construa a própria composição da água que acha que melhor vai estruturar sua cerveja.
2° Passo: Utilizar água mole ou que você tenha prévio conhecimento de sua composição
Água mole é o ideal pois com ela podemos efetivamente calcular a quantidade de minerais que vai utilizar. Água dura por outro lado já tem sua composição pronta e como provavelmente não teremos meio de remover íons é melhor nem arriscar acrescentando algo mais.
3° Passo: Produtos
Essa parte é basicamente o coração desse artigo, afinal de que adiantaria saber como cada mineral modifica a cerveja se não souber como adiciona-los? Quero ressaltar que os valores abaixo são aproximações já que mesmo em uma balança de 1 grama a exatidão para esses valores é baixa.
GYPSUM, “Gipsita” ou “sulfato de cálcio diidratado” - CaSO4 2(H2O):
- Cálcio (Ca++) 11,6 ppm/g em 20L
- Sulfato (SO4-) 27,8 ppm/g em 20L
- Uma colher de chá rasa contém: 4 gramas
- Não sei se ou onde encontramos no Brasil, mas as lojas de homebrewers lá foram vendem bem barato.
SAL DE COZINHA não iodado – NaCl:
- Sódio (Na+) 19,6 ppm/g em 20L
- Cloro (Cl-) 30,3 ppm/g em 20L
EPSOM SALT, “Sulfato de Magnésio” ou “sal amargo” - MgSO4 7(H2O):
- Magnésio (Mg++) 26 ppm (4,9 ppm/g)
- Sulfato (SO4-) 103 ppm
- - Uma colher de chá rasa contém: 4,5 gramas
Cloreto de Cálcio Diidratado - CaCl2 2(H2O)
- Cálcio (Ca++) 13,6 ppm/g em 20L
- Cloro (CL-) 24 ppm/g em 20L
- Uma colher de chá rasa contém: 3,4 gramas
- OBS: A versão desidratada (CaCl2) adiciona 18 ppm/g em 20L de Cálcio e 45 ppm/g em 20L de Cloro
BICARBONATO DE SÓDIO - NaHCO3
- Sódio (Na+) 14 ppm/g em 20L
- Bicarbonato (HCO3-) 36,1 ppm/g em 20L
- Uma colher de chá rasa contém: 4,4 gramas
CARBONATO DE CÁLCIO ou “Chalk” - CaCO3
- Cálcio (Ca++) 20 ppm/g em 20L
- CO3 - 30ppm/g em 20L
- Uma colher de chá rasa contém: 1,8 gramas
- OBS: baixa solubilidade na água. Adicionar diretamente no mosto.
Onde adquirir?
Alguns produtos podem ser encontrados em farmácias, outros em lojas de produtos químicos, encomendados em farmácias de manipulação ou ainda importados de lojas de homebrewers nos EUA.
Perfil das águas cervejeiras mais famosas:
City/Style Calcium Magnesium Bicarbonate SO4-2 Na+1 Cl-1 Pilsen Pilsener 10 3 3 4 3 4 Dortmund Export Lager 225 40 220 120 60 60 Vienna Vienna Lager 163 68 243 216 8 39 Munich Marzen 109 21 171 79 2 36 London Bitter 52 32 104 32 86 34 Edinburgh Scottish Ale 100 18 160 105 20 45 Burton India Pale Ale 352 24 320 820 44 16 Dublin Dry Stout 118 4 319 54 12 19
(Ca+2)
(Mg+2)
(HCO3-1)
Planilhas e calculadoras
Para finalizar colocarei uma calculadora feita em uma planilha do excel que considerei a melhor dentre as que testei (aproveitei e traduzi para português) e outras 2 onlines disponíveis em inglês.
- Planilha com calculadora de ph e ajuste mineral da águal (Português)
- Calculadora Gráfica Online: Brisbane Amateur Beer Brewers
- Calculadora Online: Brewers Friend
OBS: A planilha "n°1" foi traduzida e levemente modificada, a fonte original em inglês encontra-se nesse link
# BIBLIOGRAFIA



Esqueceu no sal de frutas do Fábio! hehehe
ResponderExcluirabraços,
Bernardo
uhahuahua pois é o famoso Eno, ainda nem completei a postagem para ser honesto Bernardo, vou fazer isso agora aliás !
ResponderExcluirabçs
Estou iniciando neste Hobby, assim, não entendo muito sobre o processo de fabricação de cerveja e suas nuances, mas com certeza só o esforço para pesquisar sobre o assunto e disponibilizá-lo para a comunidade cervejeira já está de parabéns!
ResponderExcluirBode, muito boa! E o nosso PH Stabilizer? Logo ele foi ficar fora da lista? Acho interessante observar a diferença entre as águas de Pilsen, Viena e Munique.
ResponderExcluirVerifiquei no site da CEDAE, e infelizmente só achei uma análise muito rasa do perfil mineral, eles dão mais ênfase ao perfil microbiológico.
Mauro, nossa água (RJ), segundo me falaram, é "mole" toda vida. Ou seja, pobre em íons de uma forma que eles são quase desprezíveis imagino eu.
ResponderExcluirSeria interessante saber um n° exato no entanto (ainda que eu tenha quase certeza que qualquer valor dado deve variar com o tempo).
abçs
Quanto as cidades com água "típicas" penso que é mais tradição e não acho aconselhavel se basear somente nesse padrão.
ResponderExcluirvou citar um exemplo óbvio de incongruência das águas típicas cervejas de cara localidade, a relação sulfato e sódio. O sultato notoriamente cai melhor em cervejas mais amargas haja vista que melhora o sabor do lúpulo e diminui a rispidez do amargor (ou seja ajuda a diminuir o tal "amargor ruim"). O Sódio é melhor utilizado utilizado em cervejas que valorizem o malte por ressaltar corpo e doçura.
Diante dessa lógica não seria estranho a cidade de londres que produz bitters (cervejas tipicamente mais amargas) usar mais sódio que sulfato ?
E ao contrário disso, em Edimburgo que faz scottish ales (cervejas tipicamente mais maltadas e doces) não é estranho eles favorecem os sulfatos em detrimento do sódio?
abçs
Bodão... Cáspita hóme! Vai ser CDF assim lá na pqp!
ResponderExcluirteu material tá melhor que o do John Palmer e o do Designing great beers junto! rsrsrs.
Só um detalhe: até agora ninguém me ensinou como "reduzir" ou "anular" a dureza...
Aqui em minha cidade, tenho cópia do boletim de análise, mas falta ´saber a quantidade de sulfato e Ca.... Mas CACO3 (alcalinidade) e dureza permanente são baixíssimas.
Abração, e parabéns pelo material postado!
Marco.
Parabéns Bode!!
ResponderExcluirSeus artigos'são muito didaticos e com certeza contribuem para a formaçao cerveija de muitos admiradores dessa artes, excelente iniciativa.
A união dos cervejeiros artesanais é um fator fundamental para elevar o padrão e a qualidade desta bebida tão maravilhosa.
Haaa... acabei de receber meu pote de 5.2 PH stabilizer!!!
ResponderExcluirTambém veio um frasco de 16Oz de StarSan e uma montoeira de lúpulos europeus!
No próximo fim de semana as novidades serão devidamente inauguradas!!!
Rapaz... inaugurei o PH 5.2 ontem... esse troço turbinou a eficiência de forma absurda!
ResponderExcluirParabens Bode;
ResponderExcluirGraças a inicitivas como a sua de repassar seus conhecimentos posso melhorar meus conhecimentos e fabricar cervejas dignas!
Muitissimo obrigado;
Abraços;
André.
Que honra vc já ter provado nossa cerveja.Quando voltar faço questão que conheça nosso espaço e prove nossa cerveja fresquinha e nossos testes!!!
ResponderExcluirUm grande abraço;
André.(mas aqui só me conhecem pelo meu apelido...Bode,somos chara kkk)
P.S.:Quando vc bebeu realmente era feita na panela só em julho do ano passado(2010) e que conseguimos não sei nem como estes equipamantos e estou fazendo praticamente igual só mudei os lupulos que usava.
Bode, comprei o kit da turma e uns apetrechos, e pela pesquisa acho to pronto pra fazer a primeira cerveja. só uma duvida, fui testar a maquina de tampinha pra naum ter surpresas na hora H e tive uns contratempos, naum descobri como faz a regulagem de altura da maquina pras garrafas maiores, e a tampinha naum ficou mto presa(da pra tirar com o dedo) pq eu fiquei com medo de forçar e estourar a garrafa.
ResponderExcluirtestei com uma garrafa vazia, tem alguma manha com a maquina, ou algum lugar onde eu tenha mais informações??
valeu, quando a cerveja ficar pronta eu digo como ficou, me desejem sorte.
Filipe
Então Filipe,
ResponderExcluirse você conseguia tirar as tampinhas com a mão e não era rosqueando uma long neck, realmente algo estava errado!
Realmente temos que fazer uma boa pressão sobre a garrafa para tampar com a máquina (eu praticamente me debruço sobre a mesma para garantir um bom fechamento).
Em relação a regulagem, de fato é um saco ficar mudando o tempo todo por isso sugiro você deixar na regulagem mais alta possível e arrumar uns "calços" de madeira ou outro material e colocar em baixo quando for engarrafar em garrafas menores assim é mais fácil e você não fica "brigando" com máquina toda vez que precisar regula-la (afinal vc nunca mais vai precisar regular a bichinha!)
abraços
eh mesmo, boa solução, vai economizar mta dor de cabeça...
ResponderExcluirVALEU BODE
Quando eu tinha aquário o que fazíamos pra retirar o cloro era deixar a água da torneira "descansar" por um ou dois dias antes de por os peixes. No aquecimento as primeiras bolhas formadas são de gases, então acho que é só esquentar a água antes de colocar o malte que tá tudo certo.. Pelo menos pra quem tem levas pequenas acho que nem precisa de filtro.
ResponderExcluirparabéns novamente pelo blog!
Luís