Fiz uma visita ao Rio Grande do Sul semana passada, levado por razões totalmente isoladas da cerveja artesanal. No entanto vocês podem imaginar que a curiosidade sempre nos leva a transformar qualquer viagem em uma espécie de peregrinação cervejeira, especialmente levando-se em consideração que eu não pude comparecer com meus colegas ao V Encontro Nacional de Cervejas Artesanais, em Porto Alegre poucas semanas antes.
Meus primeiros alvos em Porto Alegre eram o bem falado Biermarkt e um outro bar mais reservado que eu prefiro não mencionar. Este último eu sabia que só poderia visitar se fosse convidado por algum freqüentador assíduo, e devido a alguns imprevistos só pude caçar meu convite na dia que cheguei a Porto Alegre. Foi aí que a emenda saiu melhor que o soneto, o camarada Gitzler, da Acerva Gaúcha me indicou o brew pub Lagom, que ainda não inaugurou mas estava aberto para amigos aquele dia. Em Porto Alegre se faz amigos muito rápido, e bons amigos.
| Ido, Chaulet, Felipetto, Eu, Nicolai |
O Lagom é uma ousada iniciativa de Mauricio Chaulet, Nicolai, Ido e Felipetto, cervejeiros caseiros que já faziam levas com mais de 100 litros e resolveram enriquecer a cena cervejeira de Porto Alegre. O bar tem poucos funcionários além dos sócios, então tivemos uma clara impressão de que todos lá amam o que fazem. O equipamento de brassagem ainda não estava instalado no local, então os chopes degustados na ocasião foram artesanais mesmo. Os petiscos são da autoria de Felipetto; provamos ótimas bruschettas com gorgonzola. Estrangeiros que busquem uma legítima experiência da bohemia gaúcha pode fazer um aquecimento provando um xis no Lipe Bar, bem na esquina.
O Lagom não é apenas o mais novo brewpub de Porto Alegre. É o Brewpub. Duas coisas me impressionaram de primeira:
- O travessão de onde são tirados os 12 chopes artesanais servidos na casa (9 próprios e 3 da Whitehead veja o comentário do Chaulet abaixo), projeto próprio do Nicolai (figura famosa na comunidade Cerveja Artesanal do Orkut);
- Os preços no quadro de cervejas, apesar de não serem uma pechincha em termos absolutos, estão no mesmo patamar (ou até mais baratos) que o de uma famosa cervejaria fluminense que já opera faz um bom tempo e não oferece nem de longe a mesma variedade.
Só na Dieu du Ciel, em Montreal, eu tinha visto tantas opções. Tive que me segurar para não voltar para o hotel completamente virado. Acabei experimentando 5 chopes: Helles, Wit, Red Ale, Trippel e Märzen. Todos estavam excelentes, com destaque para o Helles, Märzen e o Red Ale, na minha opinião. O Wit me causou uma estranheza inicial pela falta de turbidez, mas estava refrescante e frutado como deve ser (eu quase não experimentei, porque apesar de ser um de meus estilos favoritos, o inverno gaúcho não constitui o cenário ideal para apreciá-lo). O Trippel agradou muito e quase me derrubou.
Diante da vontade de provar todos e do olhar de reprovação da minha mulher, acabei terminando com uma degustação de dois dedinhos de mais 4 chopes da casa: Eldorado (german pilsen da Whitehead), Pale Ale, ESB e Barleywine. A ESB impressionou muitíssimo, mas não tenho notas de degustação para apresentar. O Eldorado é a bebida mais neutra da casa, uma boa premium lager para se beber em grandes quantidades, a Pale Ale caiu muito bem e a Barleywine estava menos encorpada que a Red Ale da Baden Baden (também considerada uma Barleywine) e mais saborosa que a Schmitt, mas eu ainda tenho muito a aprender sobre este estilo.
O Lagom me deixou uma ótima impressão e uma grande inveja dos Porto Alegrenses que poderão desfrutar de toda esta variedade sem ir ao aeroporto. Será para mim uma parada obrigatória.
| Eldorado, Pale Ale, ESB e Barleywine, a ESB foi a que mais me agradou. |
No dia seguinte, o bom cervejeiro porto alegrense Gitzler fez a gentileza de levar-nos ao churrasco da posse da nova diretoria da Acerva Gaúcha, na Sul Sete Futebol Society, outro interessante empreendimento na região próxima ao estádio do Grêmio (o nome diz tudo). Lá tivemos o privilégio de conhecer mais empreendedores das microcervejarias Gaúchas, como a Coruja, Ralf Beer e Anner.
| No Sul Sete, Glauco (da Anner) à esquerda, eu e minha esposa à direita. |
Cinco dias mais tarde já estava apresentado à nata da comunidade cervejeira; e apto a visitar, com Gitzler, aquele seleto bar fechado onde só entra quem é da patota. Foi lá que pude provar as ótimas Maria Degolada e Libertadora, ambas da Anner. Sobre este bar eu não vou falar nada para não aumentar a curiosidade dos que ainda não o visitaram. Mas não se preocupem, este bar só tem graça mesmo quando visitado em companhia de freqüentadores habituais. Ficar correndo atrás de convites para conhecê-lo é perda de tempo em uma cidade com tantas opções; quando o convite chega naturalmente a experiência é muito melhor. Para falar a verdade, ainda me senti um intruso por lá. (edit: não estou dizendo que não tenha gostado, apenas que não quero ajudar a torná-lo uma atração turística.)
Fiquei com a nítida impressão de que embora o Rio de Janeiro venha mostrando uma posição de destaque com sua potente comunidade de cervejeiros artesanais, a cena cervejeira gaúcha está dando um banho. Isso não se deve apenas aos cervejeiros, mas a um público de bebedores muito mais receptivo à cerveja de qualidade. Não sei se é o clima ou a colonização mais puxada para o norte da Europa, mas posso apenas torcer para que um dia tantas microcervejarias e brewpubs consigam se sustentar no Rio de Janeiro como eles se sustentam em Porto Alegre.

Mauro, vc se superou nessa postagem to quase comprando uma passagem p/ voltar p/ POA só pra visitar o Lagoon!!!!
ResponderExcluirEu estive la e gostaria de registrar o quanto fiquei satisfeito em conhecer pessoalmente os amigos da Lagom.. Luciano... Nicolai... Chaulet... e todos que conheci la... as cervejas nem precisa dizer que são uma obra de arte, o local é muito aconchegante, o ambiente faz voce nao querer ir embora... destaque especial para a Outmeal Stout e da APA que na minha opniao eu pindurava a receita em um quadro bonito... vai ser boa ...!! mineiro em POA volta pra casa abatido! mas feliz!
ResponderExcluirparabens pelo post excelente...
Amigos, Muito obrigado pela visita!
ResponderExcluirMauro, por favor corrija uma informação: a cerveja Helles é de autoria de um amigo nosso, o Leonardo Sewald que naquela noite estava entre as cervejas convidadas.
Muito Obrigado!
Mauricio Chaulet
Porto Alegre é um bom lugar =)
ResponderExcluirOpa, é pra já Chaulet. Ficou difícil associar a obra ao autor diante de tanta variedade.
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